Jigoku e no kikan

(Parte 1)


Narrador: Meu nome é Wellington.

Comparsa: (rádio) Wellington, Wellington!

Wellington: (rádio) Fala.

Comparsa: (rádio) Tá na casa?

Wellington: (rádio) Sim, já entrei.

Comparsa: (rádio) Beleza, vou ficar aqui de olho. Qualquer coisa te aviso, e você me conta o que encontrar.

Wellington: (rádio) Pode deixar... Cara, essa casa é medonha. Não me admiro que chamem ela de bruxa, tem um caldeirão na sala.

Narrador: Aquela casa tinha me assustado, mas não me intimidei. A única coisa que me incomodou foi aquele maldito som de madeira rangendo toda vez que eu andava.

Comparsa: (rádio) Sinistro, o que será que ela tava preparando?

Wellington: (rádio) E isso importa? Tamo aqui pra assaltar, não pra analisar a gastronomia.

Comparsa: (rádio) Panela velha é que faz comida boa, amigão. Inclusive. Até que ela é bonita... rica... viúva...

Wellington: (rádio) Meu Deus, não acredito que tô ouvindo isso.

Comparsa: (rádio) Tô brincando. Encontrou mais alguma coisa?

Wellington: (rádio) Na sala, apenas a TV, mas não vamos conseguir levar. Nas gavetas, a única coisa de valor é um celular e uma caneta dourada. Eu vou pegar.

Comparsa: (rádio) Será que é de ouro?

Wellington: (rádio) Caralho!

Comparsa: (rádio) O que foi?

Wellington: (rádio) Ah, nada. Só um gato me olhando de forma estranha.

Comparsa: (rádio) Você me assustou.

Wellington: (rádio) Que bom, assim não me sinto só.

Comparsa: (rádio) Agora você vai pra onde? Pro banheiro?

Wellington: (rádio) O quê? Que que eu vou fazer no banheiro? Dar um mijão?

Comparsa: (rádio) Não sei, pode ter alguma coisa lá.

Wellington: (rádio) Já assaltei antes, e em banheiro nunca tem nada de importante, acredite.

Comparsa: (rádio) Tá certo.

Wellington: (rádio) Tô no quarto e... caramba, ela tem aquela marca de perfume cara, a Maison Mornoy.

Comparsa: (rádio) Traduzindo: mais money.

Wellington: (rádio) Você é inacreditável… às vezes me pergunto por que te chamei.

Comparsa: (rádio) Porque eu faço você rir.

Wellington: (rádio) Hum, já vi melhores.

Comparsa: (rádio) Quem?

Wellington: (rádio) As vozes na minha cabeça.

Comparsa: (rádio) Há ha, muito engraçado.

Wellington: (rádio) Ah, agora sim. Achei coisa boa, joias, e das caras.

Comparsa: (rádio) Bravo... Wellington?

Wellington: (rádio) O que foi?

Comparsa: (rádio) Um carro parou na porta e... um, dois homens saíram. Eles tão entrando, Wellington, sai daí.

Wellington: (rádio) Droga.

Homem 1: (do lado de fora) Ouviu algum barulho? (batidas na porta) Homem 2: Vó! Você está em casa?

Narrador: Corri para a saída dos fundos, mas aquele gato apareceu de novo. Ele era muito estranho, me olhando com aqueles olhos negros. Eu iria jogar a capa do jogo que achei ali para espantá-lo, mas, quando olhei de novo, ele tinha sumido... Olhando para a capa do jogo, vi que ela brilhava, então decidi levá-la.

[voltando para casa]

Wellington: E aqui está sua parte.

Comparsa: Valeu, esse assalto foi bom e limpo.

Wellington: E isso é pelo jogo.

Comparsa: Que isso, é só um jogo. Não precisa me dar compensação por querer ter ele.

Wellington: Você é um cara legal.

Comparsa: Sempre que precisar.

Wellington: Te chamo na próxima oportunidade. Até, Jonathan.

Jonathan: Até, Wellington.

(porta se fechando)

Wellington: Jigoku e no kikan.

Narrador: Eu iria vender aquele jogo. A capa brilhava, então poderia enganar alguém com isso, mas parecia que ele me chamava para experimentá-lo. Ele era um jogo de realidade virtual, que eu tinha, então decidi jogá-lo. Não seria uma má ideia me distrair desse mundo chato. Então fui para o meu quarto e coloquei o jogo. (jigoku e no kikan) Não tinha ideia do que se tratava, mas, ao abrir os olhos, me impressionei logo de cara. A imagem que vi era tão "real" que parecia que eu estava dentro do jogo, literalmente. A atmosfera, a estrutura de madeira que rangia... Uau! Quantos detalhes. Não podia negar que era bem bonito. Fiquei uns 2 minutos apenas admirando a vista. Até que vi algumas garotas, uma espécie de anime. Eram japonesas, claro. Pensei que poderiam ser jogadoras, então andei até elas, mas, ao me aproximar, todas me olharam.

Wellington: Eai.

Japonesa (npc): なんか変だよ…あんまり近づかないで。 (険しく警戒した目で)

Narrador: Ah, beleza. Agora, como é que eu uso o Google Tradutor em um jogo VR?

Japonesa (npc): 離れてって言ったでしょ!

Wellington: Desculpa! Mim não saber falar...

(ataque surpresa)

Narrador: Do nada, uma delas me atacou e, por incrível que pareça, aquilo doeu. As três japonesas começaram a me olhar com um olhar furioso, até que uma lança caiu em minhas mãos. Já com raiva, pressenti que tinha que atacá-las. Então logo fechei a cara e bati na cabeça da primeira. Ela logo se desfragmentou na minha frente. E pela visão periférica, vi que a outra vinha em minha direção com as mãos pra cima, segurando uma espécie de bastão. Logo me defendi daquele ataque surpresa e enfiei a lança na barriga dela, que atravessou e ela se desfragmentou também. Achando fácil, com a terceira nem usei a lança. Consegui amarrá-la e comecei a testar a física do jogo. Queria saber o quão real o jogo era. E meu primeiro ato foi dar um tapa na cara dela, fraco. Ela fez uma cara de dor e gemeu baixo, então comecei a cutucá-la e vi que ela sentiu cócegas? Fiquei impressionado com como os desenvolvedores do jogo pensaram em tudo...

"E se eu espancasse ela até a morte? Não, vamos começar com calma." Vendo que ela tinha sentido cócegas ao ponto de sair uma gota de lágrima dos seus olhos, eu decidi que iria desfragmentá-la de tanto rir. Com a pena de um pássaro que teve o azar de pousar ali perto, comecei a fazer cócegas nela, e, quanto mais eu fazia, mais os risos dela ficavam escandalosos. continuei. Até que, depois de um tempo, senti que os risos dela estavam sofridos. Ela meio que chorava, mas não muito, pois logo voltava a rir com as cócegas de novo. E, do nada, a língua do jogo mudou e, em português, ela falou:

Japonesa (npc): Você não vai parar?

Wellington (Jogador): Ahn?

Japonesa: Pare! Por favor, por que está sendo tão mau comigo?

Narrador: Eu admito, faço bastante merda fora do jogo. Já torturei uma pessoa que nem sabia se realmente merecia, mas a grana muda um homem... ou apenas mostra sua verdadeira face? Afinal, era divertido colocar um capuz da morte e torturar eles... elas... Sabia que era errado, mas a culpa só vinha depois do meu pagamento. Mas eu queria mudar. A liberdade que aquele jogo me deu me fez pensar que poderia usar ele como uma válvula de escape. Afinal, era só um jogo. Mas ali foi diferente. Ela não parecia apenas uma simples NPC. O olhar dela, as lágrimas, parecia tão... sei lá, humano. Me fez sentir um sentimento que não tinha, dó. Depois de ouvir aquilo, olhando para a cara dela, desamarrei ela. Logo em seguida, ela levantou, me olhou dando um sorriso e me abraçou. E aquele abraço foi bom... parecia sincero. Fazia tempo desde a última vez que tinha ganhado um abraço tão confortável quanto o que aquele jogo tinha me proporcionado. Estava confortável, sentindo o cheiro do cabelo dela, até que comecei a sentir algo me perfurando, como se fosse uma agulha em minhas costas. E aquela dor começou a ficar mais forte, até que percebi que a japonesa que estava me abraçando estava com uma adaga e me matando pelas costas. Eu não tinha sido desfragmentado. Ela simplesmente olhou pra mim e, falando ainda em português, ela disse:

Japonesa: Bom sono, jogador. (risada)

Não tinha entendido no começo, mas, depois de um tempo, percebi que, se você morre no jogo, você morre na vida real também.

Wellington: (som de respiração ofegante) Eu não sei muito bem onde eu estou... (respiração) mas sei que está muito calor, e tem varias japonesas me olhando com adagas e rindo de uma forma muito sinistra. Meu Deus, elas estão vindo.

Narrador: E ali foi o meu fim.

Seria muito mais confortável se eu simplesmente tivesse aceitado, mas eu não aceitei. Eu fugi, correndo descalço naquele chão tão quente que eu não sabia o que me mataria primeiro, o cansaço ou o descanso. A cada momento que demorava para dar o próximo passo, sentia a sola do meu pé derreter, e a desidratação era extrema. Olhando pra cima, via um céu sem sol que queimava mais que as chamas. Eu não aguentei correr por muito tempo, e elas me pegaram. Usando todas as minhas forças restantes, lutei com unhas e dentes. Meu corpo parecia um alfinete, a cada instante que passava, mais adagas me perfuravam. Meus olhos se fechando, minha consciência se perdendo, até que... Lá estava eu, em pé de novo, olhando para um exército de japonesas correndo em minha direção. Por instinto, ou por extrema burrice minha, eu corri, lutei e fiz isso de novo e de novo, sempre com a mesma ilusão tosca que, em algum momento, eu iria conseguir. Depois de tantas mortes e tantas lutas, comecei a ouvir vozes em minha cabeça.

Voz do além: Patético! Você está sendo minha maior diversão desde muitos séculos, tão dedicado, tão previsível e imprevisível. (risada)

Wellington: (com voz falhando) Ahn... quem é você...? Por favor... me ajude. (choro seco)

Narrador: Morrer, renascer, morrer, renascer. Consegue imaginar? (suspiro) No começo, eu lutava. Depois… só esperava acabar. E, quando acabava… eu estava lá, de pé, de novo. Durante muito tempo foi assim, até que tudo parou. Eu não sentia mais nada, e esse foi o melhor prazer que já senti na vida. Irônico, não? Era só nada, mas, pra quem ficou tanto tempo sofrendo, qualquer coisa que alivie é um prazer.

Voz do além: Então, você gostou da tortura?

Wellington: O quê? Não.

Voz do além: Ah, que bom. Eu também gostei, mas, felizmente, vou ter que deixar de ver sua cara feia. Seu tempo aqui acabou.

Wellington: O quê? Quem é você?

Voz do além: Ora, você deve me conhecer como Lúcifer, mas aqui se referem a mim como seu Deus.

Wellington: O anjo caído?

Lúcifer: Deus! SER INSIGNIFICANTE. Sua sorte é que o cara lá de cima acredita que já te torturei o suficiente. (suspiro prazeroso) E como foi prazeroso torturar você esse tempo todo. Agora aproveite sua próxima vida e continue sendo bem mal. Adoro quando vocês voltam pra cá. Até breve, pecador.

Wellington: Não, eu não quero voltar, eu não vou mais pecar.

Lúcifer: Oh, que bonitinho. Mais um que pensa que vai se lembrar daqui. Você realmente sente que é tão exclusivo assim? (risada baixa) RENAÇA!

(Choro de um bebê)

Pai: Meu filho... tão lindo.

Médico: Ele tem um nome?

Pai: Sim, ele vai se chamar Jackson.